Trata-se
de falar da história da Mallet.
Por volta de 1958/1959 nos reuníamos numa casa umbandista
chamada Tenda de Umbanda Cristã Carpinteiro José,
em Sulacap (Rio de Janeiro). Ali nós fazíamos
a parte assistencial deste núcleo de trabalho espírita
ou mediúnico. Digo trabalho espírita, porque
lá se estudava o Evangelho Segundo o Espiritismo,
O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns.
Dei muitas aulas ali.
Aos domingos, enquanto eles faziam o trabalho de assistência,
porque era um centro muito correto nas suas posições
de trabalho de assistência ao povo, eu ficava do lado
de fora assistindo, assistindo do ponto de vista assistencialista
mesmo, a algumas pessoas. Nós começamos a
fazer uma sopa com uma pessoa da própria localidade.
Eu levava umas latas de leite. E o serviço foi nascendo
assim de um modo espontâneo, mas também bem
empírico.
Esse trabalho foi sendo feito até mais ou menos 1966,
quando nos transferimos para a Mallet. Uma senhora, da própria
comunidade que nós assistíamos, chamada Maria
Augusta, nos indicou na Rua Nilton um quarto, talvez de
2mx2m, onde fazíamos a assistência espiritual
e material àquelas mesmas pessoas que atendíamos
ao lado do núcleo de trabalhos mediúnicos.
Passamos para lá no dia 7 ou 8 de janeiro de 1966.
Os remédios, o fogão que fazia a sopa, os
médiuns que davam o passe, todos nós ficávamos
num espaço de 2mx2m trabalhando.
Passamos para um outro cômodo desta casa e fizemos
uma pequena obra, que até hoje está lá.
Temos uma gratidão muito grande ao companheiro que
nos alugou a casa. À senhora Maria Augusta que nos
levou para lá, também temos uma gratidão
muito grande. Hoje ela é falecida.
Até que um dia, nossa irmã Marlene Dias viu
um terreno na Estrada Marechal Mallet e nos propôs
que fossemos ver o terreno para passarmos para aquele local.
É o local onde estamos hoje. Conversamos com o dono
e aceitamos a proposta de venda.
Para a compra deste terreno temos por dever de justiça
lembrar do nosso irmão Nicanor Paes. Foi o nosso
irmão Nicanor que desembaraçou todo o material,
toda a vida daquele terreno. Em seguida, começamos
a planejar a obra. Dali para frente fomos idealizando como
seria a Mallet. Somente assistencial? Nesta ocasião
pensei em formar uma casa-lar ali dentro, que seria entregue
à administração da Marlene Duarte Dias.
Por outro lado, a própria Mallet como núcleo
assistencial começou a crescer muito. Não
só na sopa, nós passamos a distribuir alimentos,
começamos a atender na parte médica. E é
dever de gratidão nossa lembrar do Hélio,
que foi o primeiro médico que se apresentou na Mallet
para ficar. Antes, nós tínhamos médicos
que apareciam, ficavam dois dias e não permaneciam.
E o Hélio, isto não estou fazendo elogio ao
nosso companheiro, repito é apenas um dever de gratidão,
foi o primeiro médico que ficou naquele trabalho
de atender às crianças e até hoje está
junto a nós.
Quando o Hélio chegou à Mallet, já
estávamos começando a ter a instalação
mais ou menos definitiva. Ele não acompanhou a gente
na época da Tenda de Umbanda Cristã Carpinteiro
José, ele acompanhou a gente já na Mallet.
A Mallet, eu costumo dizer que é uma obra de solidariedade.
A idéia de colocar o nome de Antonio de Aquino para
a Obra saiu, justamente, porque ele é um espírito
conhecido por mim há muitos anos. Eu trabalhei num
centro espírita chamado Casa do Coração,
que existe até hoje em Ipanema (Rio de Janeiro),
aonde Antonio de Aquino era um dos diretores. Eu o conheci
nesse local. Tive a grata satisfação de um
dia saber que ele foi um dos que promoveram meu retorno
à Terra. Tenho uma gratidão muito grande a
esse espírito.
Como ele sempre cuidou muito de pessoas pobres, dos movimentos
sociais, inclusive do Brasil, isso dito pela antiga diretora,
já desencarnada, da Casa do Coração,
ela sempre nos avisou que Antonio de Aquino era um dos homens
que cuidavam dos movimentos sociais do Brasil. Ele sempre
cuidou muito dos pobres, dos deserdados. Então eu
tive a feliz idéia de colocar o nome da Obra como
Obra de Antonio de Aquino. Ele é um espírito
iluminado, generoso e tem dado mostras de que mantém
o trabalho assistencial sob suas mãos. Os grandes
problemas que passamos, os riscos que corremos, os ataques
espirituais à Obra, os ataques materiais à
Obra, sempre encontraram uma barreira na figura desse espírito
que chamo de escol.
As vezes que observei problemas muito sérios na Mallet,
que me preocupavam, ia dormir pensando em como solucionar
aquele problema e fazia minhas preces para ele, ele dizia
para mim que eu devia confiar muito em Deus, porque o resto
ele fará. E realmente, todos os problemas, todas
as circunstâncias difíceis eu confiava em Deus,
mas pedia o socorro também a Antonio de Aquino. No
decorrer dos anos vimos que ele mantém a obra sob
suas mãos.
Há uns dezesseis anos atrás, não sei
precisar, veio a idéia de formar um centro espírita
no local, para atender às pessoas do bairro, que
seria desvinculado da Obra Assistencial. O centro espírita
foi formado e demos o nome de Centro Espírita Antonio
de Aquino.
Já tínhamos o serviço da sopa, que
foi o segundo serviço assistencial da Mallet. O primeiro
serviço foi a distribuição de leite,
porque o Dr. Hermann sempre me disse que a Mallet atenderia
prioritariamente à criança, e da criança
atenderíamos aos pais das crianças. Mas a
idéia é a criança. Então a primeira
distribuição foi de latas de leite.
Quando passamos para a Mallet levamos esses dois serviços:
a distribuição de leite e a sopa. Passamos
a fazer o serviço de passes, a doutrinação,
porque sempre colocamos ao lado do passe a difusão
da Doutrina Espírita. Fomos acrescentando outras
tarefas, como a distribuição de roupas. A
Mallet é um grande consumidor das riquezas materiais
que temos, porque as obras são mantidas pelo Centro
Espírita Léon Denis, os mantimentos em sua
boa parte, são oriundos dos cursos do Léon
Denis. A Mallet consume muito dinheiro e o Centro Léon
Denis é que mantém a Obra Assistencial.
Os serviços foram aparecendo, distribuição
de roupas, corte de cabelos, médicos foram aparecendo
e fomos instalando, a pouco e pouco, a área médica
que temos. Márcia Cordeiro nos ajudou durante muito
tempo, trouxe alguns amigos, uns ficaram outros não.
A vida dá muitas voltas e temos trabalhos que podemos
fazer hoje e não pudemos fazer em outras ocasiões.
Mas esses companheiros passaram por ali e deixaram as marcas
de suas contribuições. Como dentista, tivemos
nossa querida irmã Augusta Acácio, que foi
uma das estacas do serviço assistencial, fazendo
serviço dentário, primeiramente aqui no Centro,
porque na Mallet não tinha água instalada.
Instalamos aqui no segundo andar um gabinete dentário
e ela e um outro companheiro que só vinha aqui para
cuidar dos dentes das pessoas. Nós trazíamos
os assistidos da Mallet. Isso é um episódio
que pouca gente sabe e os antigos nem devem recordar desse
fato. Até que um dia pudemos instalar um gabinete
na Mallet e esse serviço foi retirado do Centro e
passou para a Mallet.
Os serviços foram crescendo na medida que os trabalhadores
iam aparecendo, e até hoje usamos essa técnica.
Se chegar um trabalhador oferecendo uma oportunidade de
trabalho, um serviço qualquer, nós aproveitamos
esse trabalhador. E essas pessoas assim o fizeram, foram
chamados e aproveitaram a chamada. E repito, a vida dá
muitas voltas e nem sempre as pessoas podem continuar do
nosso lado como gostaríamos que continuassem.
A idéia da creche surgiu como uma atividade que poderíamos
fazer. O trabalho da creche foi uma decorrência. Foi
um trabalho que vimos como continuidade do socorro que dávamos
às crianças. A creche está lá
cumprindo o seu mandato, com cooperadores bons, que trabalham
com muita dignidade e carinho. Mas, o governo está
cada vez interferindo mais nessas obras assistenciais, com
diretrizes, ordens, e nós se quisermos manter a qualidade,
a possibilidade de servirmos temos que nos render a certas
imposições governamentais, sob pena de sofrermos
uma sanção ou intervenção. Volto
a dizer que Antonio de Aquino até hoje esteve à
frente de todos os nossos trabalhos, nos protegendo, mas
não se pode confiar a vida inteira nossa defesa aos
espíritos, temos que fazer a nossa parcela. E como
fazer nossa parcela? Nos adequando as diretrizes do governo.
Qual o projeto futuro da Mallet? Vamos lembrar que todos
os companheiros que passaram, cujos nomes foram citados
e alguns deles nem sequer foram lembrados por mim, mas tenham
a certeza que estão escritos no meu sentimento e,
muito mais, estão escritos no coração
de Antonio de Aquino e de todos os outros companheiros.
Esses companheiros fizeram uma base, implantaram o espaço,
criaram a condição da Mallet ser levantada.
Quando olhamos aqueles prédios todos nos emocionamos,
porque aquilo é fruto de 30, 40 anos de suor, não
foi conseguido nada com estalar de dedos, tudo foi suor,
trabalho, perseverança. Mas uma coisa o trabalhador
de hoje pode ter certeza, aquele núcleo continuará
sendo um núcleo de assistência, um socorro
à fome, à doença, e neste particular
vamos ampliar o serviço. Mas também será
um núcleo social, ou seja, um local onde a pobreza
possa encontrar uma diretriz, uma guarida para os seus passos.
Não se sabe qual vai ser a atividade futura da Mallet.
Estamos dando passos, caminhando na direção
de uma organização médica melhor, de
uma organização social melhor, do aumento
da creche. Tudo isso com vistas à melhoria do serviço,
mas também a adaptação dele aos novos
tempos.
Mas, uma coisa não podemos esquecer: se essa obra
esquecer o coração, ela vai virar um órgão
governamental qualquer da vida. E é isso que o trabalhador
do passado sempre preservou, ou seja, manter uma obra do
coração.
Uma mensagem que damos para os que estão chegando
agora e os que estão assumindo paulatinamente. Dos
primitivos trabalhadores temos a Elvira, eu e a Jorgina,
que chegou após a gente, mas o resto são de
pessoas novas. E daqueles da segunda, terceira e quarta
hora muitos já foram substituídos. Mas todos
nós mantínhamos uma noção de
que o serviço deveria ser feito pelo coração.
O nosso cérebro deve funcionar nessa obra para a
organização da mesma, mas a execução
tem que ser pelo coração.
A mensagem que deixo para os que vão planejar o futuro,
para os que vão implantar o futuro da Mallet é
que jamais esqueçam que aquela obra sobreviveu até
hoje pelo coração, porque nós temos
que ver os assistidos como pessoas amigas e não nos
importássemos que nos chamassem de você, que
chamassem os médicos pelo nome próprio, que
chamassem os professores pelo nome próprio, porque
fazíamos questão de dizer que antes de serem
assistidos eram nossos amigos.
A mensagem que dou para os trabalhadores do futuro é
que mantenham esse sentimento, se vocês querem manter
uma obra assistencial espírita, uma obra social cristã.
Se vocês não querem uma obra para vocês,
se vocês querem uma obra social para o Cristo. Se
vocês querem manter a obra social para o Cristo, tornem
os assistidos seus amigos. Tenham como dever primeiro o
sentimento, depois venham com os outros deveres.
Nunca deixamos de falar de doutrina espírita ali.
Obedecendo ou não às diretrizes governamentais,
nunca deixamos de falar de doutrina espírita. Nunca
impusemos a doutrina espírita para ninguém,
mas sempre falamos de doutrina espírita. A doutrina
espírita sempre esteve à frente de todas as
tarefas na Mallet. Não tenham medo de falar de doutrina
espírita, só não imponham a ninguém.
Mas não tenham medo de serem espíritas. Não
tenham medo de dizer que estão ali trabalhando como
espíritas. E como disse o nosso querido instrutor
Balthazar, há pouco tempo, numa instrução
a um grupo de trabalhadores. Ele disse que nós deveríamos
recordar que quando atendemos a uma pessoa, seja com alimentos
ou remédio para a manutenção daquele
corpo, era para que aquele espírito que está
ali renascido tivessem oportunidade de prosseguir na sua
trajetória.
Nós, os trabalhadores da casa de Antonio de Aquino,
devemos recordar que estamos trabalhando para levar comida,
leite, saúde, remédios, mas não é
com vistas àquele corpo, é com vistas aos
espíritos que estão ali. O corpo é
o instrumento de que eles estão se servindo e temos
que atender ao corpo, mas temos que atender ao espírito.
Intuitivamente nós sempre fizemos isso e foi agora
bem recentemente que Balthazar disso isso. Nós já
fazíamos isso intuitivamente quando sempre pusemos
a doutrina espírita à frente de tudo, mostrando
então que já estávamos entendendo a
idéia dele, que era de socorrer as almas que estavam
ali encarnadas.
Altivo
Carissimi Pamphiro - Um dos fundadores da Obra Social Antonio
de Aquino